Histórias da Vovó: "A Rosa de Sangue"


Todas as tardes, por volta das cinco horas, Maria Luiza – apelidada de Malu – ouvia as histórias que sua avó contava. Essas histórias deliciavam a sua imaginação e enriquecia seus mais fascinantes sonhos. 
   Malu não poderia deleitar as histórias em solidão. Por isso ela chamava seus amigos mais íntimos para compartilhar da exuberante sabedoria da sua avó. Estes eram Diana, Lucas e Miguel.
   -Venha avó! – gritou Malu apreensiva. – Estamos ansiosos pela história!
   -Calma Malu, eu estou preparando um delicioso chá! – respondeu a avó serenamente enquanto trazia uma bandeja de prata com um bule e seis xícaras, além de bolinhos.
   Matilde, amiga da avó, veio atrás com um jarro chinês com cinco rosas amarelas, três brancas, uma cor-de-rosa e uma vermelha viva como o sangue.
   -Que lindo vaso! – exclamou Diana maravilhada. - Suas rosas são lindas!
   -Obrigada Diana. – respondeu a avó com um lindo sorriso. –Bem vamos começar a história então, pois Malu está com o energia hoje.

   “Era uma vez, no tempo dos reis e castelos, uma história de amor, mas com um final trágico. Havia um lindo castelo onde morava um Rei com sua família. Esse Rei era pai da mais bela donzela do reino cuja pele era como seda e cujos cabelos longos eram dourados. Sofia era o nome que pertencia a esta donzela. 
   Ela amava todas as flores, mas em especial e com mais vigor e lealdade as rosas. Por isso a Rainha Catarina criou-lhe um enorme jardim de rosas. Lá havia todas as rosas conhecidas – menos a vermelha cujas raízes não apropriavam ao solo.
Daniel era o jardineiro dessas rosas. Jovem, bonito, com olhos azuis, mas pobre, pois era o oitavo filho de uma família de camponeses. Sofia criara o hábito de visitar o jardim quando eram cinco horas da tarde. Ela caminhava horas e horas por entre o jardim.
   Numa dessas tardes Sofia se encontrou com Daniel. Quando os olhos dos dois se encontraram, os corações bateram forte, seus sorrisos se completaram e as rosas brancas, entre eles, suspiravam de amor e felicidade.

   Durante dias a princesa escapava ao encontro do jardineiro e a cada dia eles se aproximavam e se enamoravam. No entanto seu pai começara a desconfiar desse romance. Como não poderia demitir o jardineiro – porque ele era serviçal da Rainha – decidiu contratar um capataz para matar o jardineiro quando fosse quatro e meia da tarde para que sua filha não aparecesse e presenciasse a perda.
   A princesa ansiava por fugir com seu amado para longe das vistas de seu pai, pois sabia que ele nunca haveria de permitir esse romance. Sofia havia sido prometida em casamento para um nobre velho e rabugento.
   A fuga então foi preparada e a Rainha, ciente de tudo, ajudava, de forma indireta, o apaixonado casal. Chegado o mais importante dia, Daniel havia começado sua rotina. Às três horas da tarde, ele regava e cortava as roseiras e colhia as roas que já estavam belas.
   Infelizmente, por força do destino, coincidência ou outra força maior que nós, Sofia decidiu visitar seu amado mais cedo. Assim que a torre sinalizou às quatro e meia da tarde, o capataz apareceu. Um rastro de morte e terror acompanhava-o. Corvos rondavam o palácio e o jardim.
   Como de costume Daniel se dirigiu para a zona das rosas brancas junto com Sofia. Lá ele ensinava-a como cuidar das rosas e a amá-lo ainda mais.
   Na hora marcada o céu tomou suas vestes acinzentadas e um frio se libertou do norte. O vento soprava contra o capataz, como se tentasse impedi-lo. As rosas arranhavam-no como se, inexplicavelmente, se esticassem contra o opressor. O capataz marchou até os dois com fortes passadas. O ar estava pesado. Daniel e Sofia estavam juntos, segurando a mais bela rosa que havia nascido no jardim desde o início. O capataz se aproximou, retirou sua espada e se dirigiu para o casal. Daniel olhou para seu inimigo e em um gesto rápido se colocou a frente de Sofia, sem se preocupar consigo mesmo.
   O capataz trespassou o coração de Daniel e, sem perceber, o de Sofia ao mesmo tempo. O agressor retirou a espada e a rosa branca lançou-se ao chão com ímpeto. Daniel caiu para um lado e Sofia para o outro de forma que a rosa ficou no centro, manchada de sangue. No mesmo instante do assassinato Matilde, a servente da Rainha, preparava o chá das cinco quando presenciou ela e a Rainha presenciou toda tragédia.
   Dias depois a princesa foi enterrada ao lado de Daniel no centro do jardim. No local da tragédia nunca mais nasceu uma flor, nenhuma erva. A Rainha nunca mais tomou o chá no local voltado para o jardim. O capataz se suicidou dias depois e o Rei faleceu de desgosto.
   Após dois anos da tragédia uma serva chamou por sua Rainha para lhe mostrar aquilo que era o Milagre das Rosas. O jardim estava totalmente coberto de um manto vermelho, nenhuma outra rosa nascia e mesmo plantando outra espécie ela acabaria por ficar avermelhada com o tempo. Algumas pessoas falam que é possível observar Daniel e Sofia cuidando do jardim e as rosas chorando lágrimas de sangue!”
    -Bem esse é o fim! – disse a avó.
  -Que bela história. Trágica, mas bonita. – disse as meninas emocionadas.
  -Que cara valente! O Rei deve ter arrependido. - disse um dos rapazes.
  -É a pura verdade meus filhos. Amanhã eu conto outra para vocês.
   -Que estranho! - comentou Miguel.
   -O que foi? - questionou Malu.
   -Eu juro que naquele vaso havia cinco rosas amarelas, uma cor-de-rosa, três brancas e somente uma vermelha. - respondeu Miguel olhando para os vasos. - Agora estão todas vermelhas!
Malu olhou para sua avó e observou que lágrimas caiam de seus olhos.


Autor: Matheus A. Ramos

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